O quarto maldito- um exemplo de como a "memória de parede" funciona.
Memória de parede é uma espécie de gravação de uma forte emoção- geralmente negativa, expressão de dor, tristeza, raiva- que fica registrada nas paredes de uma residência. Não se sabe como essa gravação é registrada. O que se sabe- e, a partir disto, pode-se deduzir algo a respeito do processo- é a propriedade que os minerais têm de registrar dados, como sons e imagens. As fitas magnéticas, que eram muito usadas para gravação de sons e imagens, possuem camadas de metal- ferro, cromo- e o disco rígido de um computador tem uma camada de silício. É provável que os materiais minerais usados para edificação (tijolos, cimento, areia) absorvam de algum modo as emoções e as armazenem. Quando uma pessoa sensível se aproxima do ambiente, ela aciona, sem se dar conta, esses registros- como se apertasse uma tecla play. Tais gravações constituiriam em grande parte aquilo que se chama de assombração ou fantasma.
A durabilidade ou vida útil de tais gravações é discutível. Existem registros de casas assombradas que datam de séculos. Há quem diga- alguns especialistas em Radiestesia- que elas seriam "eternas", não havendo jeito de "apagá-las" ou limpá-las" do ambiente. Outros já afirmam que uma demolição resolveria o problema- já houve casos em que casas mal-assombradas foram demolidas. Ritos religiosos de reza, benzedura ou de exorcismo são inócuos, ao menos nos casos em que não existem agentes capazes de manipular os registros- espíritos.
A estória que se segue apareceu num livro do pesquisador Sergio O. Russo, Monstros, Seres Estranhos e Criaturas Extraordinárias (Ediouro, 1988) e é um bom exemplo de como a memória de parede funciona. Eis o resumo:
Um representante de frigorífico , em uma de suas muitas viagens, escolheu um hotel para passar uma única noite. Lá chegando, ia sendo conduzido por um funcionário para o quarto que lhe havia sido alugado, quando viu, de relance, um homem metendo a chave num dos quartos e entrando. Ficou surpreso quando o funcionário do hotel meteu a chave no mesmo quarto em que o tal homem havia acabado de entrar. "Mas, como?, este quarto já está ocupado!" Não, senhor, está vago, veja", respondeu o rapaz, acendendo a luz e mostrando que o quarto estava, de fato, vazio.
Tudo bem. O viajante, muito cansado, apenas tirou o paletó, a gravata e os sapatos, deitando-se imediatamente. No entanto, não conseguiu dormir. Levantou-se e resolveu tomar um banho. Mesmo assim, não conseguiu relaxar nem dormir. Sentia que havia alguma coisa errada com aquele quarto... Levantou-se e voltou à recepção, pedindo para mudar de quarto Outra chave lhe foi entregue imediatamente, sem discussão. No quarto novo, conseguiu dormir rápida e profundamente.
No dia seguinte, intrigado, resolveu, antes de ir embora, perguntar ao gerente qual era a história daquele quarto. O gerente então contou que, num passado recente, um homem havia assassinado uma moça numa fazenda e depois fugido para aquele hotel. Os parentes da moça, que ficaram no encalço do homem, conseguiram localizar o hotel, subiram até o quarto do assassino e o balearam. Ele morreu na cama. Disse o gerente do hotel que, por mais que eles tentassem, a maioria das pessoas que alugavam aquele quarto não conseguiam passar a noite lá dentro. Eles- o gerente e o funcionário, nada diziam aos locatários para evitar que o quarto ficasse sempre vago, já que, se as pessoas soubessem, ninguém iria querer alugá-lo.
O que ocorreu nesse caso é que as emoções negativas emanadas pelo assassino que foi baleado e morto- medo, dor e, por fim, agonia- ficaram registradas naquele quarto de hotel. O representante do frigorífico, protagonista da história, graças a sua sensibilidade, não conseguiu dormir, porque as emoções do homem que foi baleado outrora impregnavam o ambiente, afetando-o, provocando nele mal-estar, uma inquietação suficiente para deixá-lo em estado de alerta, bloqueando o relaxamento necessário ao sono. Sua sensibilidade não o fez ver nem ouvir nada, apenas afetou seu sistema nervoso. Médiuns videntes ou auditivos talvez fossem capazes de ver ou ouvir as cenas gravadas como num playback, embora o original desse relato não contenha referências sobre isso; apenas é dito que havia pessoas que não conseguiam dormir de modo algum naquele quarto.
Eu já vivi uma experiência estranha num quarto de hóspedes, mas não aconteceu num hotel. Numa virada de ano, ficamos, eu e meu pai, na casa de hóspedes de um amigo. Essa casa havia sido dividida em quatro suítes independentes, sem ligação umas com as outras, pois era intenção do dono fazer dela uma mini pousada. Nos primeiros três dias de nossa estadia, dormimos numa suíte que dava de frente para o grande quintal da casa desse amigo. No terceiro dia, tivemos que nos mudar para uma suíte que ficava no lado oposto, nos fundos dessa casa de hóspedes, por causa da chegada de outros amigos. Ali, então, ficamos, apenas por duas noites, e foram noites difíceis para se dormir, porque eu fui tomado por um sentimento estranhíssimo, semelhante, na falta de uma definição melhor, a uma angústia bastante intensa. Meu pai dormiu normalmente, apenas eu fui afetado. Nós checamos, junto a esse amigo dono da casa, com bastante sutileza, se havia acontecido alguma coisa diferente naquela casa de hóspedes, e nada ocorreu, de acordo com ele. No entanto, um amigo da esposa dele, médium praticante de candomblé, costumava dormir naquela suíte, sempre que os visitava. É bem possível que eu tenha captado alguma energia trazida por esse médium e que ficou gravada naquela suíte. Esta seria uma explicação para aquelas duas noites mal-dormidas. Existe um detalhe interessante que não mencionei anteriormente: a casa ficava numa ilha, sendo que as duas extremidades do terreno, frente e fundos, davam para praias. Na cultura japonesa, a água é considerada uma espécie de portal, que pode ser utilizado para os espíritos que habitam o reino dos mortos, os yurei (fantasmas), passarem para o nosso mundo. Sir Oliver Lodge e T. C. Lethbridge acreditavam que os locais próximos a mares, lagos e rios possuíam uma incidência maior de fenômenos paranormais, notadamente de assombrações.
Recentemente, assisti a um filme japonês, chamado Four Roads to Hell (no original, Shijou ooji toori in tsukasa), produção de 2007, um omnibus ou antologia com histórias curtas sobre fantasmas, baseadas em histórias reais recolhidas pelos roteiristas. A primeira história, Another One, por coincidência, trata de um homem que se hospeda num quarto de hotel e é assombrado pelo solitário fantasma de um técnico de time de basquete, que ele supõe ter se suicidado naquele quarto. No início, o homem só ouvia barulhos no quarto, até que o fenômeno foi se tornando mais intenso, culminando na visão do fantasma.

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