Sobre a brevidade da vida
De Brevitate Vitae é um opúsculo composto por Sêneca - Lucio Aneu Sêneca, que viveu entre o quarto ano após o nascimento de Cristo e o sexagésimo-quinto, após o início da era cristã - e que trata de um problema que ainda hoje nos acomete, a saber, se o lapso temporal que nos é dado para existir sobre o mundo é o bastante, ou se faríamos maior proveito da vida, se tivéssemos mais tempo.
Há quem acredite, e isso vem desde o tempo do filósofo estóico até hoje, que vivemos por muito pouco tempo, que a vida é por demais curta, que nos falta tempo para fazer, viver, pensar, sentir, tudo o que poderíamos.
Quantas vezes você já não se perguntou sobre o que seria capaz de fazer, se tivesse muito mais tempo?
Muitos acreditam, frente à cotidiana e áspera constatação de que não têm vivido plenamente, que poderiam chegar a fazê-lo, caso nosso destino sobre a terra não fosse tão cruel, concedendo-nos apenas um breve lampejar, que logo se apaga.
Não é essa a opinião de Sêneca. Segundo suas ponderações, não é tempo o que nos falta. Em época anterior à penicilina e mesmo a simples constatações de que a assepsia era boa coisa a se adotar em cirurgias, quando o termo médio da existência humana era bem inferior ao habitual, entre nós, o pensador sustentou que não nos falta tempo, porém vida. Nosso pendor para as distrações banais, para o fútil, o supérfluo, para o desnecessário, para as disputas inúteis, nosso amor pelo ouro ou pelo ódio, pela tolice ou pelo sono, nossos apetites banais, é o que nos impede daquilo que ele chama de realizar "grandes obras" - o que ele fez, em apenas sessenta e oito anos respirando sobre o mundo.
Pensador, homem público, dramaturgo, pessoa de posses, que todavia levava vida bastante austera, não desfrutando de sua riqueza, para não se desviar daquilo que pretendia realizar em seu lapso de vida, Sêneca é exemplo do quanto se pode fazer dentro de uma existência que ele não entendia como breve.
Pode ser, no entanto, que você não pretenda realizar grandes obras, mas apenas gozar a existência, fruir o estar no mundo, pelo maior tempo possível. Quem ou o quê te obrigam, afinal, a essa história de grandes obras? Isso pode ser visto como um apelo, um desejo - um desejo bastante comum entre quem não leu ou discorda de Sêneca, ou de Marco Aurélio, sobre quem a gente pode falar outro dia, desde que ainda estejamos vivos - mas não como um argumento. Afirmar que nossa existência não se prolonga o suficiente para que dela o gozemos o bastante colide com a constatação de que nossa vida, infelizmente, não é senão raro prazer, muito eventual felicidade, a que se chega sob grande esforço, quando se chega, mas que é, sim, muito mais o que você conhece. O despertador, os horários marcados que violam nossa natureza, as atribuições que costumeiramente entendemos como tediosas ou mesmo contrárias a nossos princípios, o amor que nasce como paixão, mas que logo cede a uma vida em comum nem sempre tão gentil quanto procuramos demonstrar a nossos amigos ou nossa família, e nem entremos no mundo da dúvida excruciante, do remorso, da dor, da doença. Contra isso, recorre-se ou à bobagem, ou à indiferença, ou à intoxicação. É isso mesmo que você deseja prorrogar? É em favor disso que você se queixa da brevidade da vida?
Não; quero crer que você clama contra a natureza da vida, inexorável, e também contra suas formas sociais que nem se alteram tanto assim ao longo dos séculos, sempre senhores e escravos, quer os senhores se chamem a si mesmos como os nobres, as classes produtoras ou os ocupantes do comitê central do Partido, o que for. Contra o calendário é que não pode ser.
Imitemos, amigos, Sêneca, que mesmo rico dormia sobre colchão rígido, não excedeu-se no vinho e realizou grandes obras. Antes de cerrar os olhos, não o atingiu o sentimento de não ter feito tudo o que devia, ou podia. Soube ter vivido. Sob os normais limites e sofrimentos de nossa condição, todavia viveu.
Há quem acredite, e isso vem desde o tempo do filósofo estóico até hoje, que vivemos por muito pouco tempo, que a vida é por demais curta, que nos falta tempo para fazer, viver, pensar, sentir, tudo o que poderíamos.
Quantas vezes você já não se perguntou sobre o que seria capaz de fazer, se tivesse muito mais tempo?
Muitos acreditam, frente à cotidiana e áspera constatação de que não têm vivido plenamente, que poderiam chegar a fazê-lo, caso nosso destino sobre a terra não fosse tão cruel, concedendo-nos apenas um breve lampejar, que logo se apaga.
Não é essa a opinião de Sêneca. Segundo suas ponderações, não é tempo o que nos falta. Em época anterior à penicilina e mesmo a simples constatações de que a assepsia era boa coisa a se adotar em cirurgias, quando o termo médio da existência humana era bem inferior ao habitual, entre nós, o pensador sustentou que não nos falta tempo, porém vida. Nosso pendor para as distrações banais, para o fútil, o supérfluo, para o desnecessário, para as disputas inúteis, nosso amor pelo ouro ou pelo ódio, pela tolice ou pelo sono, nossos apetites banais, é o que nos impede daquilo que ele chama de realizar "grandes obras" - o que ele fez, em apenas sessenta e oito anos respirando sobre o mundo.
Pensador, homem público, dramaturgo, pessoa de posses, que todavia levava vida bastante austera, não desfrutando de sua riqueza, para não se desviar daquilo que pretendia realizar em seu lapso de vida, Sêneca é exemplo do quanto se pode fazer dentro de uma existência que ele não entendia como breve.
Pode ser, no entanto, que você não pretenda realizar grandes obras, mas apenas gozar a existência, fruir o estar no mundo, pelo maior tempo possível. Quem ou o quê te obrigam, afinal, a essa história de grandes obras? Isso pode ser visto como um apelo, um desejo - um desejo bastante comum entre quem não leu ou discorda de Sêneca, ou de Marco Aurélio, sobre quem a gente pode falar outro dia, desde que ainda estejamos vivos - mas não como um argumento. Afirmar que nossa existência não se prolonga o suficiente para que dela o gozemos o bastante colide com a constatação de que nossa vida, infelizmente, não é senão raro prazer, muito eventual felicidade, a que se chega sob grande esforço, quando se chega, mas que é, sim, muito mais o que você conhece. O despertador, os horários marcados que violam nossa natureza, as atribuições que costumeiramente entendemos como tediosas ou mesmo contrárias a nossos princípios, o amor que nasce como paixão, mas que logo cede a uma vida em comum nem sempre tão gentil quanto procuramos demonstrar a nossos amigos ou nossa família, e nem entremos no mundo da dúvida excruciante, do remorso, da dor, da doença. Contra isso, recorre-se ou à bobagem, ou à indiferença, ou à intoxicação. É isso mesmo que você deseja prorrogar? É em favor disso que você se queixa da brevidade da vida?
Não; quero crer que você clama contra a natureza da vida, inexorável, e também contra suas formas sociais que nem se alteram tanto assim ao longo dos séculos, sempre senhores e escravos, quer os senhores se chamem a si mesmos como os nobres, as classes produtoras ou os ocupantes do comitê central do Partido, o que for. Contra o calendário é que não pode ser.
Imitemos, amigos, Sêneca, que mesmo rico dormia sobre colchão rígido, não excedeu-se no vinho e realizou grandes obras. Antes de cerrar os olhos, não o atingiu o sentimento de não ter feito tudo o que devia, ou podia. Soube ter vivido. Sob os normais limites e sofrimentos de nossa condição, todavia viveu.
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